Análise do remake de Sete Homens e Um Destino

Mais um remake nos cinemas e o Ronaldo Gomes da RockCine faz um comparativo dos pontos de cada época de Sete Homens e Um Destino.

Sete Homens e Um Destino

Todo remake desperta de imediato a pergunta: para que refazer uma produção cinematográfica? Dinheiro é a resposta mais rápida e simples. Afinal, ninguém propõe a atualização de um fracasso de bilheteria. Que outra razão levaria Gus Van Sant a dirigir, em 1998, uma nova versão de “Psicose”? É claro que o seu filme seria comparado com o original, magistralmente realizado em 1960 por Alfred Hitchcock. O mesmo serve para Andrew Davis, diretor de alguns bons filmes, que topou refazer, no mesmo ano de 1998, outro clássico do mestre Hitchcock, “Disque M para Matar”, de 1954.

Disque M para matar

Mas, se for simples assim, por que, em alguns casos, o mesmo diretor decide fazer a releitura de um argumento? Esse é o caso, do próprio Hitchcock, que fez em 1956, nos Estados Unidos, “O Homem Que Sabia Demais”, que já havia dirigido na Inglaterra 22 anos antes. Sem contar outros, como Sam Raimi e George Miller, por exemplo, que de tempos em tempos voltam aos mesmos temas – “A Morte do Demônio” e “Mad Max”, respectivamente.

Embora as obras revisitadas sejam sempre garantia de lucro, o fato é que muitas são clássicos do cinema ou até mesmo antes de chegarem à tela, em casos de adaptações de livros, séries de TV e quadrinhos.

O caso de “Sete Homens e Um Destino” é a oportunidade de entender o desenvolvimento e a cristalização de um épico no cinema de gênero.

Sete homens e um destino 1960

A jornada dos heróis

O original era um jidai-geki, como os japoneses chamam os filmes de época, feito por Akira Kurosawa. “Os Sete Samurais” foi uma revolução em 1954. Por um lado, entendido como alusão ao estado das coisas no Japão e no mundo – após a Segunda Guerra Mundial, quando foi garantido que, graças à fundação da ONU, não haveria mais guerras, veio a Guerra fria e a da Coréia, abalando a crença nas instituições, governos e, principalmente, no futuro da humanidade. Por outro, seu estilo visual e narrativo influenciou todo o cinema que veio depois, começando pelos westerns americanos.

Akira Kurosawa

Nos EUA, Kurosawa passou a ser endeusado e criou grande interesse pelo cinema japonês. Só um exemplo: o termo jedi, criado por George Lucas para designar uma casta de guerreiros (assim como os samurais) de planetas muito, muito distantes, foi inspirado na expressão jidai-geki.

Em 1960, o filme de John Sturges usou pela primeira vez o título “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven, no original), um bang-bang muito movimentado e com grande elenco que reconhecia, em letreiro na abertura, ser baseado no filme de Kurosawa. Nos anos seguintes, houve uma verdadeira enxurrada de cópias e adaptações da mesma ideia, envolvendo desde gladiadores romanos, passando por aventureiros espaciais, chegando ao cúmulo de anões guerreiros contra bandidos motoqueiros. Todos queriam lucrar em cima do argumento testado e aprovado pelo público.

Mas o ponto culminante foi em 1998 com a animação “Vida de Inseto”, escrita e dirigida por John Lasseter, para a Pixar. No desenho, aparentemente endereçado a crianças, muitas discussões sobre o preconceito e a aceitação do diferente são colocadas de forma muito bem humorada e criativa, envolvendo e encantando todas as idades.

Vida de inseto

Sintonia com o público

A nova versão de “Sete Homens e Um Destino” é assumidamente baseada no roteiro do original japonês, mas conta na adaptação com Richard Wenk, especialista em filmes de ação, e Nic Pizzolatto, reconhecido como gênio pelo roteiro da série “True Detectives”. A direção de Antoine Fuqua é caprichada, cheia de alusões e homenagens a velhos westerns de John Ford e Howard Hawks, entre outros.

Sete homens e um destino 2016

Mas a grande vantagem do filme está exatamente em sua realização tardia. Fica claro que ela se nutre de todas as experiências anteriores. Seu grande trunfo, no entanto, é ter vindo depois de Quentin Tarantino, que não faz filmes, mas cinema, resgatando, citando, aproveitando (desavergonhadamente!) e até subvertendo tudo que já foi visto antes. Após Tarantino e sua coragem de arriscar, o público aceita e aplaude coisas inadmissíveis antes.

Assim, as incongruências, exageros e Pintura índio Sete homens e um destinoanacronismos deixam de ser notados, ou são perdoados, já que funcionam bem na história. É o que ocorre com a absurda pintura do
índio, por exemplo.

 

Em seu antecessor, dirigido por Sturges em 1960, os sete do título são cidadãos norte americanos brancos, enquanto os bandidos que assediam a vila são mexicanos. Nessa época, o número de latinos no país não era, como hoje, de 57 milhões – superando o de negros – e o público (americano, claro, que era o único que interessava) via com naturalidade que todos os bandidos fossem mexicanos.

Na atualização, como no filme de 60, todos têm um passado dúbio, mas o grupo é formado por um malandro, um confederado, um chinês, um mexicano, um religioso louco e um índio pintado para guerra, liderados por um caçador de recompensas negro. A missão que assumem de defender a cidade leva cada um a aceitar e reconhecer os outros como companheiros, apesar das diferenças. Esta é uma lição edificante que vemos se repetir de forma cada vez mais explícita – principalmente depois do 11 de setembro – desde “Star Wars”, passando (de forma talvez mais séria e abrangente) por “X-Men”, para se manter em sintonia com o público. E também para não correr o risco de ofender alguém, como um bom filme que pretende uma grande bilheteria deve ser.

Já o treinamento do povo da cidade para a luta é menosprezado. Diferentemente de outras versões, não é mostrado o processo de aprendizado, que leva a queda de preconceitos e ao resgate da autoestima dos moradores. Algumas mulheres, no entanto, são salvas pelo roteiro, mas com pouco espaço, só para escapar de acusações de machismo.

Há muito ainda a comparar e muito a dizer sobre a nova versão de Sete Homens…, especificamente como filme, como o personagem de Vincent D’Onofrio, único no cinema apto a enfrentar o urso que quase estraçalhou Leonardo DiCaprio em “O Regresso”, mas seria abusar da paciência do leitor.

Quanto à pergunta inicial, talvez, a resposta seja que clássicos, uma vez reconhecidos, se tornam inesgotáveis. Mesmo mal tratados, conservam algo de sua grandeza. Ainda que seu maior mérito seja nos dar saudades e remeter ao original.


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