A linguagem cinematográfica de Velho Chico

Linguagem cinematográfica na TV

Nos últimos tempos temos acompanhado  séries e novelas que revolucionaram a linguagem televisiva, Ronaldo Gomes da RockCine fez um review de Velho Chico, novela com uma pegada de cinema.

Os Caminhos do Velho Chico 

Rainha da cultura pop no Brasil, a TV faz tudo para não perder a coroa conquistada já no início dos anos 60. Só que todos concordam que não existe nada mais chato que a programação televisiva em nosso país. Quem, no fim do domingo, aguenta os velhos bordões de Faustão ou Sílvio Santos? A vinheta do Fantástico é suficiente para deprimir qualquer um que tenha uma semana de trabalho pela frente. Mas nem tudo são más notícias, pelo menos no mundo da ficção televisiva. Temos visto, ainda que esporadicamente, produções relevantes e até revolucionárias em séries e novelas.

Linguagem

Produto de maior penetração em todas as camadas sociais, a telenovela é uma descendente muito mais direta da radionovela, adaptada às pressas ao novo veículo, do que do teatro.

Por décadas, usou apenas as três ou quatro câmeras indispensáveis aos planos geral e médio, além dos muitos closes requeridos pela telinha. Os diretores, artistas e técnicos eram formados nos próprios estúdios, por falta de escolas de comunicação no país e só os roteiristas e adaptadores vinham do teatro e, em raros casos, do cinema.

Mas do dia 18 de setembro de 1950 – quando Assis Chateaubriand inaugurou a TV Tupi de São Paulo – para cá muita coisa mudou. A mais impactante foi, sem dúvida alguma, a passagem para o digital, seguida da alta definição. Isso exigiu novos cuidados. Não dava mais para apenas pintar janelas no fundo do cenário, era preciso colocar vidros e mostrar o que existia lá fora. (Foi assim que a novela “I Love Paraisópolis”, num capítulo obviamente finalizado às pressas, mostrou as amplas janelas do escritório de um executivo como os painéis azuis, que de fato eram, sem a paisagem a que os espectadores estavam acostumados).

Falha de Chroma em novela

Com a necessidade de usar técnicas e efeitos cinematográficos, mais caros e trabalhosos, abriu-se caminho para linguagens mais elaboradas. Se era preciso gastar mais, porque não faze-lo direito? O ápice dessa nova fase pode ser visto todas as noites, na Globo.

A virada

Principalmente no começo, “Velho Chico” causou estranheza. Muita gente reclamou e a emissora passou a segurar um pouco o diretor Luiz Fernando Carvalho. A principal queixa se referia ao fato de ser uma novela que é preciso assistir (ver). Não dá para apenas ouvi-la, enquanto se lava a louça ou coisa assim, e só olhar de vez em quando para o aparelho de TV. Mas o avanço é inegável.

Feita com uma só câmera, a linguagem da nova novela das nove é mais que cinematográfica. Os cuidados são muitos e o resultado excelente. A começar pela abertura, uma concepção estética – feita sobre o trabalho dos artistas plásticos Mello Menezes e Samuel Casal – e não um amontoado de efeitos digitais vazios como costuma acontecer em outras produções da mesma emissora.

O elenco é outra maravilha. Embora seja sempre um prazer ver grandes e reconhecidos atores, como Chico Dias, Fabíula Nascimento e Rodrigo Santoro, na primeira fase, e Dira Paes, na segunda, é uma delícia ver gente nova ou (quase)-desconhecida na televisão. Gente com a cara e a cor do Brasil, sem contar os sotaques: originais (e não mais os mesmos atores fazendo papel de italiano, grego, árabe, português, nordestino, indiano, a que estávamos acostumados). Em que outro lugar encontraremos ao mesmo tempo Irandhir Santos e Lee Taylor, o primeiro vindo do ótimo cinema independente de Pernambuco, enquanto o segundo é formado no CPT, de Antunes Filho, em São Paulo. Mas o grande destaque é mesmo a linguagem, de um realismo poético só visto antes na televisão em ouros trabalhos de Luiz Fernando Carvalho.

Luiz Fernando Carvalho

Anacronismos

O primeiro capítulo já deixou muito claro o estilo estético e narrativo da história. Enquanto na fazenda as imagens, com luz e edição realistas, mostram o coronel Saruê e sua mulher com roupas de fins do século dezenove, em Salvador, onde o jovem herdeiro comemora a formatura no curso de direito, há um clima de fim dos anos 60 do século passado. No mesmo episódio, um universo rural arcaico convive com uma festa absolutamente de inspiração libertária, na capital. Isso cria um embate de significados suficientes para produzir uma tese acadêmica. A festa dos estudantes é mostrada, pelo tratamento dado a imagens e sons, numa ode tropicalista.

Com o desenrolar da narrativa, os anacronismos vão se acentuando. O jovem advogado chega à fazenda dirigindo um carro esporte conversível. Depois, quando já está administrando a propriedade da família, é visto dirigindo um sedan do final dos anos 1950. Por fim, quando se prepara para levar a filha para um internato religioso, afastando-a do namorado indesejado, veste uma casaca branca, do começo do século 20, e confere a hora num relógio de bolso, antes de embarcar num carro do começo dos anos vinte do século passado.

Mudanças na primeira fase "Velho Chico"

Panorama

Bom exemplo do espírito que guia a novela é o percurso das cartas, enviadas secretamente do internato na capital para o sertão. Elas são levadas por pessoas em bicicletas, cavalos, carroças, balsas e barcos, passando por cidades, vilas, feiras e rios, construindo um retrato da diversidade do nordeste brasileiro e seu povo.

Tão importante quanto a cenografia, o figurino e as locações no sertão nordestino, é a trilha sonora. Um trabalho tão cuidadoso e arrojado quanto a escolha do elenco, foi a seleção das músicas que marcam, complementam e até explicam as cenas, determinando o ritmo da história. Sem contar que estão entre as melhores criações do cancioneiro brasileiro. Muitas, resgatadas de um injusto esquecimento ou até recuperadas de uma carreira curta ou de total insucesso décadas atrás.

A soma de todos esses elementos eleva o texto a outro patamar, transformando situações e diálogos que poderiam ser vistos como ingênuos ou meramente didáticos em pura expressão artística. O andamento, tom e equilíbrio da novela lembram todo o tempo que estamos diante de uma obra de ficção, que deve ser vista como tal. É como se houvesse uma mistura perfeita de Quentin Tarantino, Glauber Rocha e Caetano Veloso, sem desrespeitar o enorme coração de Benedito Ruy Barbosa.

Velho Chico

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