Grandes filmes para quem busca fugir dos blockbusters

Grandes filmes sem ser de ação e sem explosões, apenas qualidade

Confira a crítica de Ronaldo Gomes  aqui na RockCine para quem busca um bom filme, fugindo dos blockbusters

Ave César e Juventude 

Fuga de Hollywood e amor pelo cinema. 

Com o tempo, fomos acostumando cada vez mais a assistir fugas, perseguições, tiros, saltos e lutas – em Tóquio, Havana, Rio de Janeiro – ou ainda batalhas épicas e apocalípticas entre fantásticos exércitos ou indivíduos superdotados. Tudo isso, embalado por gritos de adolescentes em meio a chuvas de pipoca.

Mas, para quem anda um pouco cansado disso, existe muito cinema além dos filmes de ação. E nem é preciso se afastar tanto de Hollywood.

Filme A juventudeA Juventude” se passa num caríssimo e requintado hotel dos Alpes suíços, mas o cinema americano está sempre presente. Os personagens centrais são dois artistas idosos. Um maestro aposentado, vivido por Michel Caine, e um diretor americano (que está desenvolvendo o roteiro para seu próximo filme), interpretado por Harvey Keitel, passam o tempo em conversas, discussões e reminiscências sobre a vida, o mundo e os problemas da idade. Com eles, sempre está um jovem ator americano, Paul Dano, que se isolou para preparar o próximo trabalho e odeia só ser lembrado pelo papel de robô num filme quase infantil.

Em torno do trio, uma miríade de figuras peculiares. Entre elas, a filha do maestro, que guarda secretas mágoas do pai; um grande craque do futebol argentino, comovente em sua solidão e excesso de peso; além de uma inusitada miss universo. A história é dada pela soma dos pequenos personagens que passam, enquanto os dois velhos rabugentamente discutem e, aos poucos, revelam seus verdadeiros dilemas.

O filme mistura o prosaico, o corriqueiro, o humano, com elementos de estranhamento, resultando num tom felliniano, o que evita um clima depressivo colocando-o, em termos gerais, mais perto da comédia que do drama. O que impressiona, porém, não é o grande desempenho dos atores centrais – além de algumas participações especiais –, mas a beleza obtida dos momentos mais inesperados. São muitos. O mais marcante talvez seja o de um bando de velhos nus na sauna. Uma cena que teria tudo para ser triste e constrangedora, mas se torna um belo momento de puro cinema.

Cena de Juventude

Mais uma surpresa do diretor Paolo Sorrentino, italiano que só nos últimos tempos nos deu “Aqui é o meu lugar”, em 2011, e “A grande Beleza” em 2014.

Filme Ave, César!Já em “Ave César”, os irmãos Ethan e Joel Coen entoam um hino de amor a Hollywood sem abrir mão da crítica ácida que sempre marcou seus trabalhos. Josh Brolin é o executivo de um grande estúdio às voltas com uma infinidade de contratempos, que vão de questões básicas como estouro de prazo e orçamento das produções, passando por desavenças entre o diretor e o ator principal de um filme importante, até a gravidez indesejada de uma estrela.

A história se passa no pós-guerra, quando o cinema americano começou a se firmar como monstro sagrado e a se sujeitar aos ventos conservadores que sopravam de Washington, principalmente do Senado e do FBI. Mas a maneira como isso é tratado é hilariante, sem deixar de ser impiedosa com as concessões da indústria cinematográfica.

O elenco é deliciosamente adequado, com George Clooney como um divertidíssimo canastrão (papel que ele parece adorar), enquanto Alden Ehrenreich faz um ator campeão de bilheteria que só consegue interpretar cowboys apaixonados.

George Clooney em Ave, César!

Entre as aventuras e trapalhadas de profissionais de cinema e imprensa, podemos assistir às cenas de filmes que estão sendo rodados. São referências a grandes produções da época, parodiando sequências famosas, algumas impagáveis.

O que une esses dois filmes é o esmero da mise-en-scène, a preocupação com a linguagem, que acaba falando mais que os diálogos, indo além das histórias contadas. Isso mostra que para fazer arte nas telas não é necessário ser chato, verborrágico, pretencioso ou, principalmente, pesado.

Outro ponto de união entre as duas obras é o uso da música, seja ele diegético – quando ela faz parte da história (se uma banda toca numa festa, por exemplo) ou não. Em “Ave César” as cenas de musicais são as mais engraçadas e sarcásticas, enquanto em “A Juventude” elas sempre levam para um espaço lírico, poético, principalmente na emocionante última sequência.

Quando acabamos de assistir a produção dos irmãos Cohen, temos vontade de ir a um bar ou outro lugar qualquer em que possamos encontrar os amigos e comentar o que vimos e como isso nos fez bem. Já, quando termina a sessão do filme de Paolo Sorrentino, queremos apenas encher os pulmões de ar para dar um grande suspiro, em silêncio, gratos por estarmos vivos e termos presenciado essa maravilha.

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